quinta-feira, 9 de junho de 2011

Três Contos Fantásticos – Machado de Assis




Por que Machado de Assis? Por que eu terei que ler um livro escrito há mais de cem anos? Não são poucos os jovens hoje que devem formular tais perguntas do gênero. Na mesma proporção, também teremos de convir que não sejam poucos os mais velhos que tratam Memórias póstumas de Brás Cubas como parte apenas de seu currículo acadêmico. A verdade é que o intenso mundo da multiplicidade de informação e do modo de vida que temos hoje nos distanciou deste escritor, um ficcionista que é considerado o autor mais importante da Literatura Brasileira. Essa parece ser a anemia que nos aborda, a motivação para descobrir um escritor e se redescobrir como leitor. O tratamento então deve começar com algo leve, como uma caminhada ao domingo. É exatamente o que pretende trazer a publicação intitulada Três Contos Fantásticos, da editora Edifieo, de tal maneira que o nome não poderia explicar melhor, reunindo três contos do escritor.
Os três contos de Machado de Assis reunidos na publicação são: “Sem Olhos”, “Um esqueleto” e “A chinelada Turca”. Apenas três de mais de duzentos contos do autor que prometem divulgar uma narrativa de mão-dupla aos leitores iniciados e não iniciados. Cada conto carrega em sua viagem múltiplas leituras do escritor e a descoberta da abordagem da pessoa humana num sentido universal, espelhando no personagem da narração as contradições a as dimensões profundas da natureza humana. O sobrenatural que aparece nas histórias esta contextualizado no fantástico, marca do Romantismo. Aqui a preocupação principal não é o mistério ou horror, estes seriam apenas mecanismos para se chegar à uma indagação final do que é realmente real, tanto ao leitor como ao personagem. Na metade da leitura de “Sem Olhos” o mistério, como já dito, parece ser o intuito final, mas ao termino da narração de um episódio narrado pelo próprio personagem do conto são levantadas questões num perfil de critica social, caracterizando-se assim um romance realista.   
Após a leitura do primeiro conto já manifestamos um entusiasmo intrigante para ler os outros dois, um entusiasmo que faz com que entendemos o motivo pelo qual paira até hoje a duvida se Capitu traiu ou não trai seu marido. Se desperta uma curiosidade mesmo após terminarmos de ler a história, ou seja, o conto não acaba quando Machado de Assis coloca o seu ponto final, ele continua em nossa cabeça. Isso mesmo, o conto continua na nossa cabeça, não como flashes ou cenas de novelas, mas na nossa perturbação com a verdade e ilusão que compartilhamos com o personagem, é um vinculo com a obra é um agradecimento tão grande que somente lendo “A chinela Turca” pode ser compreendido.  
Três Contos Fantásticos oferece obras que possui a condição de recolocar o leitor diante de uma reflexão que ultrapassa época ou lugar. Recoloca o leitor em uma situação de desbravamento, numa falta de compreensão saudável diante do desconhecido que o motiva a pensar e repensar, ler e reler, até uma intriga que o faz abrir diversos olhos diante do estranhamento. Essa publicação é uma porta aberta para começarmos a conhecer mais de perto, talvez, o maior escritor brasileiro de todos os tempos (com o perdão do clichê), e também ao nosso próprio mundo interior.

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