quinta-feira, 9 de junho de 2011

A cara de Casos de Família

A cara de Casos de Família

O programa vespertino Casos de Família, transmitido pelo SBT, é o símbolo do atrofiamento da capacidade de reflexão que a cultura de massa intrigou. Apresentado por Christina Rocha, o programa tem a duração de uma hora, e só não vou falar o horário que ele vai ao ar, porque é possível que o SBT tenha mudado a sua programação quando eu acabar de escrever esse texto, vendo que a manutenção dos horários não é o forte da emissora em questão. O formato do programa é simples, um talk show que deseja retratar a vida das pessoas comuns. São convidados três ou quatro grupos de pessoas desconhecidas para debaterem algum problema da vida deles, que é comum ao tema do dia. Quem acabou de ler essa última frase pode ter a impressão que o programa tem uma boa finalidade, se considerarmos que levanta discussões próximas da nossa realidade, ou até que é um programa que dirige o olhar ao povo. Tudo impressão. O talk show é um paiol de bobagens, não pelo motivo da briga que leva os convidados até o palco, mas pela visível ignorância com que o programa conduz o debate.
A apresentadora Christina é conhecida na mídia como a defensora do povo, lembrando que ela mesma se intitula a tal. Já trabalhou com temas polêmicos e escandalosos, programas de fofoca, quadros de defesa ao consumidor, entre outros do gênero. Seu rosto já está vinculado ao povo. Porém, esse vínculo parece ser tão grande que ela acaba se fundindo à massa, ao senso comum. Não consegue pensar e agir no programa como deveria, ou seja, uma intermediadora, alguém capaz de discernir as opiniões de cada um. Eu disse no começo sobre atrofiamento da capacidade de reflexão, e assim por analogia podemos fazer tal comparação: se Christina tem a cara do povo, então o povo realmente perdeu a capacidade de fazer juízo das coisas, de analisar outros pontos de vista, de tentar pensar pelo outro.
Não posso ser injusto e dizer que Casos de Família sempre tratou os casos das famílias com parcialidade e intuito sensacionalista. Anteriormente, era apresentado por Regina Volpato, jornalista formada pela USP, que ficou no período de 2004 a 2009 e por conta da reformulação do programa decidiu não continuar à sua frente. Ela conseguia conduzi-lo de forma civilizada, sem bate bocas e brigas. Mas o que merece ser ressaltado é que ela conseguia extrair de cada programa questionamentos morais e deixava para o público em casa a reflexão. O que a atual apresentadora Christina faz é inflar uma briga de bar.
Christina Rocha não respeita as opiniões contrárias dos convidados. Quando os homens são chamados ao programa, ela emprega demasiados juízos de valor de cunho feminista, deixando a discussão sem propósitos. Para acompanhar o embalo da casa da luluzinha, o programa também conta com as análises tendenciosas dos péssimos psicólogos, análises estas que eram muito mais criteriosas no tempo da antiga apresentadora. O que vale tirarmos de valor do Casos de Família hoje? Acho que só a infeliz constatação da emissora brincar com o povo, fazer um programa que sugere um debate, mas que na verdade é um quebra pau com o único objetivo da audiência, e muito pior, incitando a ignorância e a intolerância ao outro ponto de vista.

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